sábado, 3 de setembro de 2011

Purple Raze...in memory... - A Morte de Nadine...












Purple Raze...in memory... - A Morte de Nadine...





Era domingo ensolarado perto da represa. Não era o domingo de sempre nesta região pois o sol desinibido assim só se insinuava em três épocas distintas no ano como para que retificar quem manda no pedaço da borda da pizza do nosso sistema planetário, assim como um rei decadente, convalescente e trôpego. Era uma dádiva para os seres que não fossem anfíbios e esses domingos no lago da represa que tinha um charco ao seu redor circundando a parte seca que propiciava devaneios efêmeros. Seria desaforo ficar por fora do espetáculo e não poder compartilhar o manjar aos sentidos que alimentava o espírito e a memória coletiva através de cenas de cores, sensações, calor, sonoridades e frescor.
Si, um verdadeiro banquete sinuoso oferecido pela natureza quando o rei sol demonstrava seus dotes de Maître e dionisiaco da luz, onde ignorar-lo ou não prestigiar tal acontecimento era uma desfeita tal qual o ser ignorante, egoísta estaria condenando-se ao mérito de deslocado do privilégio da passagem na vida. Todos os seres com o mínimo de bom senso participava deste espetáculo a sua maneira, como traçara o destino das forças celestes.
Os humanos por sua vez sem plena consciência participava como por osmose, assim foi com Nadine e seus amigos. As tragédias humanas aparecem as vezes uma pincelada discreta como para dar contraste ou contorno da cena como coadjuvante de primeiro-plano de uma boa tela feita por um verdadeiro artísta de quadro de pintura.
Quando não, um simples figurante, simples, mas essêncial e de não menos valor para existência de uma boa cena. Uma nuvem, sombra, detalhes, simples detalhes, alguém já me disse por aí que o valor das coisas esta nas pequenas coisas, que o segredo da beleza da vida esta nos seus detalhes. Nadine era um destes detalhes que passa desapercebido pelos olhos duros e enferrujados dos humanos e que figurava nesta tela de domingo o qual o sol projetava a cena principal do seu primeiro-plano que era a dança da luz sobre o lago da represa.

Os três amigos da Nadine costumeiramente não perdiam o passeio ao lago da represa desta época do ano, ja que o sol os intimara todos os jovens bobalhões e romanticos a ir prestigiar o espetáculo efêmero da mãe natureza. Mas desta vez um dos três amigos bobalhões e românticos de Nadine não estava com o grupo, algo estava errado, mas isso não os desanimou-os.
Afinal, o sol era o Sol, e celso era apenas o celso.Bobalhão que estava meio confuso e recluso. Depois, seus amigos tirariam chacota dele e usariam o caso do passeio para resgata-lo de seu vagar no abismo de seus tormentos inconfessos. O celso estava nessa onda juvenil de caras que tem vergonha de se ver preso ao peso de uma crise de sentimentos, e neste caso não era tão simples, era paixão. Paixão que ardia por nadine, sua amiga de infância.
-Porra! Putaquemepariu! Logo eu? E agora?Tô fudido!
Bradava inutilmente consigo mesmo.
Celso passava por um bom bocado. Sua cabeça e o resto do seu ser estava uma bagunça só. Sua cabeça, parecia queimar com um barulho inconstante que o assaltara a cada relampejo em seu pensamento de algo que se assemelhava a um assombro. Nadine vinha a sua cabeça e a música desconexa e barulhenta tirava sua respiração de ordem e desalinhava seus pensamentos, o coração descompassava e algo parecia brotar do estomago ao coração, do coração a garganta, da garganta a cabeça, da cabeça algo com todo o barulho do mundo partecia estourar com sensações conjuntas de calor e cheiro que fazia-o fremer sua vista e por vezes lágrimas escorriam espontaneamente em seu rosto ardente, seus olhos pareciam esbugalhar, quase saindo de suas órbitas, com surpresasurpreendia-se neste espaço de agoniatempo-agonia sufocando gritos de desespero e felicidade como que uma felicidade proibida pela sua consciência doutrinada a não ceder aos sentimentos...afinal pecar em pensamento é o pior e o ultimo estágio de qualquer ser que se ver rendido a não ter dominio de sua razão, o tornando inconsequênte de suas ações. Ele sabia que teria de por fim aquela bagunça que encontrava seu ser...sem ter a mínima ideia de como fazer isso e como isso póderia ser possível, estava literalmente tateando outro universo, outro planeta, uma superfície inexplorada até agora por seu ser de jovialidade imbecil e febril. Celso está perdendo a inocência no jardim da vida, que alguns diriam jardim do Édem, está se deparando com sua nudez e um sentimento de repulsa, prazer, mais repulsa e raiva. Esta possuíndo por um amor proibido... uma mistura bizarra de raiva e amor por nadine estava deixando ao ponto de enlouquece-lo. Seu coração e sua vida estava ao dente para servir de prato principal as ironias do acaso do destino.
Não queria ceder, restara-lhe inutilmente lutar contra isto que o atormentava.
Para caras como ele, na idade e fase que desfilava seu vigor, seus sonhos e pensamentos sobre a vida, sentir amor por alguém que a vira sempre e cresceram juntos desde criança era uma sentença de ser tratado como otário edipiano! Pobre diabo...
-CARALHO!?! Como ela popopóode ter feito isso comigo? Como eu pude deixar isso acontecer???
-Meu deus!!! Afasta de mim esse cálice, senhor... Celso inconscientemente ruminava o aprendizado da litania religiosa que agora, só agora parecia haver sentido...e algumas peças vão se encaixado sobre as razões de certas coisas que aprendemos na vida.
Nadine por sua vez não sabia disso, pelo menos tentava dar a impressão que não sabia.
Há! esta sabedoria feminina parecia se divertir em segredo como da agitação da presa de uma aranha tentando se livrar da rede!
Celso estava tão boboca com ela...evitando-a, sendo rispido, etc...
"Não é assim que se trata UMA AMIGA!"
"Deixe-o passar uns bocados... divirta-se e depois corte a linha para aliviar o pobre diabo de sua confusão..."
-Ei! Quem vai perder é você seu tartamugo desaforado! Não se faz isso a um dia tão bonito! Tchau depois te conto o que você perdeu...
Celso não foi...e essas seriam as últimas palavras que ouviria da boca de sua secreta amada.
Nadine não insistiu com celso em ir ao passeio por que ela não queria cometar suas suspeitas sobre o qual celso estava se emaranhando como gato em bola de lã...iria estragar o passeio anual do grupo contado sobre a paixonite de Celso, coitados. Nadine andava sobressaltada com uns ecos das musicas que vem de tempos em tempos em sua cabeça que ela ouvira a uma semana atrás...era de um cd que celso tinha emprestado antes dele resolver enlouquecer ...Johnny Thunders....
"You Can't Put Your Arms Around a Memory???"
Nadine arriscava em cantarolar um possível refrão do que recordava e sem saber porquê gostara...
""You Can't Put Your Arms Around a Memory???"
Uma dessas músicas falava da memória e das coisas que vale apena em armazenar-las, coisas que as vezes não são agradáveis mas que faz parte do existir para esboçar o sentido das coisas agradáveis...essa música principalmente levava os passos da nadine contra o vento fresco a caminho da represa com seus amigos.
Era longa a estrada uns 5 Kilometros de onde partira da pequena cidade...mas todo o seu longo percurso compensava, o dia estava majestoso, qual nesta época as vezes tornava qualquer existência, a vida explendorosa e dignificada...
Eles caminhavam com tanta propriedade e lividez nesse percurso por eles tão trilhados que eles poderiam fazer-lo de olhos fechados...a estrada cortava este caminho em dois...eles iam ao lado direito...onde estava o lago e ondesempre raiava o dia com o sol nascente ...Celso conhecia melhor o caminho pois ele prescutara alí para suas pescas corriqueiras...
-Logo hoje, ele resove não se exibir como pescador... que chatalhão ele está pessoal! comenta em soslaio nadine...
O passar dos carros não eram rotineiros pela estrada do caminho, e este dia não mudara isso, passava como qualquer outro dia. De longe percebece-se a proximação de um...já passara uns seis no intervalo de 8 minutos...
Mas deste carro, não perceberam sua proximidade no raio de três quilometros...ou não deram atenção mesmo...só um carro.
Sim! Só um carro mesmo, um dodge beje ano 72. Só que dentro o Waldir, homem da cidade, a 42 anos, 81 Kilos, recém-divorciado e sem filhos; já que o filho que tanto queria da ex-esposa não poderia ter tanto porque ela não queria tanto porque teria medo de herdar de sua família filhos com problemas genéticos, dois anos desempregado, enuviado, ensebado, barba de uma semana por fazer, molengo em sua cadeira de guia, olhos petrificados e como se engolidos a ver para dentro de sí, mas direcionados para a estrada como como na retidão das linhas que trilhava o seu torpe pensamento , rádio alto cuspindo algum resultado e comentário de um jogo de futebol idiota qualquer que ele não dava a mínima atenção. Estava sem destino certo mas estava indo...isso era só o que importava para ele. O importante era que estava indo...não importava para onde...mas ficar sem caminhar seria pior...
"talvez para cochabamba, para dentro de um vulcão desses indíos..." pensava..."Foda-se! Para qualquer lugar...longe do lugar de antes, serve qualquer lugar que seja distânte...distante da onde? Há! Isso Mesmo! já estou perdendo a trilha! isso mesmo é o que eu preciso! ir apagando o rastro para não ser idiota em voltar e fazer alguma merda pior do que já está cagado..."
Waldir já guiava por três dias sem intervalo razoável...
Do lado direito da estrada a uns 3 quilômetros Nadine ia caminhando com seus amigos e a sua frente, já próximo o lago da represa onde improvisariam um piquenique com algumas coisa trazidos em sacolas de casas e algumas frutas colhidos no meio do caminho por seus amigos e Nadine com alguns ramos de pequenas flores silvestre para enfeitar a toalha-mesa...
Seus amigos deliciavam caminhar com Nadine, ela era daquelas pessoas que deixavam transparecer a música que pensava em seus gestos e falas e seu corpo parecia uma marionite desta beleza das coisas, seguia o ritmado de uma música própria que ela candenciava desprentesiosamente, espontâneo e natural.
Seu ser encantava o canto que dava para nela se ver...
Isso!!!...as vezes para as pessoas, Nadine era música para se ver, os amigos os privilegiados...e Celso...não suportou e abobalhou-se com toda essa ternura...fisrgh!
Nesse momento parece-se que o tempo divorciou-se da lógica da física terrestre...um portal do tempo abriu um buraco...e em questão de milésimos um clarão onde cegou de luz os olhos de todos que piscaram ao mesmo tempo fez parecer tudo misturado e lento com o impacto do clarão da caixa atemporal de pandora no intervalo encandescente do sol, do sorriso da Nadine, o peso da pressão sobre estas coisas no ar e um vento meio que abafado e o suave recobrar auditivo do som da vida xomo ao submergir de um mergulho, ao do longo sorrir da nadine que parecia cuspir uma grande onda do mar que jogava seu corpo para trás com essa força e descompassala como um ébrio de felicidade fútil, um sorriso tão longo quanto seus negros cabelos cacheados que se espalha tão lentamente quase como que varrendo o vento deslizando no ar para fugir do chão que parecia querer tragar para suas entranhas...há salsero do desfile para eternidade da arte da natureza e suas belezas subliminares!!!...tudo isso em três segundos num angulo da sequência de imagens que durou o desenhar do todo deste cenário fantástico.
Três lentos segundos e o tempo volta em breve ao seu curso lógico normal mas só que com pesada sensação de breve e universal mutez...silêncio...
Nesse momento no dodge beje do ano 72 a 80 Km/h, waldir cansado estava longe do controle do seu exercicio de reflexão mental, anestesiado, literalmente dirigindo no piloto automático.A apesar de ser um dia ensolarado Waldir só via nuvens a sua frente. Nem percebeu o que exatamente foi aquele baque ruído do esfarfalhar sob a estrutura mecânica do carro que longinquamente ouvira quando percebeu ter passado por cima de algo ou alguma coisa, saco de lixo, tronco de arvore, pedra, animal ou até mesmo uma pessoa!!! Aí ele despertou de seu coma existêncial assustado...diminuiu a velocidade e olhou primeiro pelo retrovisor e depois inclinou-se para ver atrás pela janela do dodge.
E viu...era um corpo de alguém qualquer que ele atropelou como se fosse o seu próprio ser e assim o despertara da profundeza abissal partiular.
-Merda! Cochilei no volante! Pronto! Agora mais uma cagada pra coleção de minhas merdas. Quer saber? Chega! Merdas à merda enquanto estiver vivo!
Trocou a estação do rádio e colocou numa música que parecia ser um rock dos anos 60, sentia-se vivo novamente, olhou pelo retrovisor e duas pessoas gritando como loucas agachadas em volta de uma pessoa que parecia já estar morta.
-Sinto muito, filhos! A vida não é justa e eu não sou juíz nem superheroi nem socorrista, então...fuuui-se!
Waldir suspirou e acendeu um cigarro com uma longa tragada, olhou o retrovisor novamente e acelerou e foi com forças recobradas , seguindo a estrada desconhecida escutando uma música que até por irônia das coisas viu-se cantarolar...
- Eu já ouvi essa porra em algum lugar"Purple raze..." e aumentou o volume... "...my mind..."
-Nadine!!! Acorde, Nadine!!!
Berrava seus amigos diante do corpo espatifado pelas rodas de um dodge qualquer, de uma pessoas debil mental qualquer...
Berravam e era tudo que poderiam fazer...o pior cego é aquele que não quer enxergar e era mais que visível que Nadine já tinhase despachado deste planeta para qualquer um lugar desconhecido...o doce sorrir de Nadine neste dia tatuou para sempre a memória de seus amigos e de Celso que nem estava presente mas parecia ser o expectador mais onipresente depois dos fatos em que este destino leva também ao charco ao lado do lago da represa.
Entre o asfalto e a terra do caminho do acesso ao lago um quadro pintado com um paralelo transversal com uma disformidade de um borrão da imagem grotesca agora com terra, sangue, ossos, fluídos da maquina assassina e fluídos da maquina da beleza e do amor, o sol secara e sessara seu desfile refletindo nos cachos ainda esvoaçantes ao solo dos cabelos negros e brilhantes de nadine. Efemeride espetáculo do sol "...‎Purple Raze...in memorie... baby!

Ogro Lunar. ‎sábado, ‎3‎ de ‎setembro‎ de 2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Fortalecer a campanha pela imediata liberdade de Cesare Battisti! - 13 de Fevereiro de 2011

Fortalecer a campanha pela imediata liberdade de Cesare Battisti!


Quase quatro anos se passaram e Cesare Battisti continua preso no Brasil. A prisão preventiva mantém-se graças às pressões que o governo de Silvio Berlusconi exerce sobre Brasília para que o ex-ativista político seja extraditado para a Itália. Toda espécie de arbitrariedades políticas e jurídicas está sendo realizada para condenar Cesare Battisti por quatro assassinatos que não cometeu. Apesar de Lula ter negado a sua extradição, o escritor italiano ainda é mantido preso, a espera de uma nova e absurda apreciação do Supremo Tribunal Federal.

O ministro relator do caso, Gilmar Mendes, declara agora que “tudo será considerado a seu tempo”, sinalizando que arquitetará novo malabarismo jurídico para prolongar a agonia de Cesare Battisti.

Como lutadores sociais, sabemos que a perseguição ao ex-ativista é, antes de mais nada, um recado àqueles que ousam se levantar contra o regime de dominação e exploração. Na pessoa de Cesare Battisti, buscam punir exemplarmente lutadores de todas as gerações.

Várias entidades, movimentos sociais, organizações políticas, coletivos, ativistas ligados aos direitos humanos e às reivindicações democráticas tiveram a iniciativa de conformar comitês em várias regiões do país a fim de lutar contra a extradição de Cesare Battisti, e exigir - seja do STF ou do Poder Executivo -sua imediata liberdade e concessão de asilo político no Brasil. Apenas uma mudança na correlação de forças poderá acabar com a “fuga sem fim” do escritor italiano. Vários debates e manifestações foram realizados no Ceará, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Mas estes foram apenas os primeiros passos de uma longa jornada, para a qual devemos nos preparar.

Para os próximos dias, convocamos aqueles ativistas, organizações, movimentos e entidades sindicais que ainda não aderiram à campanha a ingressar ativamente nestas atividades, conforme calendário a seguir:


- Manifestação com concentração no MASP

(na sequência caminharemos até o Consulado Italiano, na Av. Paulista)

18 de fevereiro, sexta-feira, às 17 horas

- Plenária ampliada com entidades, movimentos e representações políticas:

19 de fevereiro, sábado, às 15:00

Espaço Mané Garrincha

Rua Silveira Martins, 131, sala 11.

- Saída da caravana a Brasília

22 de fevereiro, terça-feira, 16 horas

- Ato político em Brasília e visita a Cesare Battisti

23 de fevereiro, quarta-feira

A liberdade de Cesare Battisti depende exclusivamente de nossa capacidade de luta! Junte-se a nós!

Comitê Battisti Livre - SP

http://brasil.indymedia.org/images/2008/02/412693.jpg

O Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti foi formado com o objetivo de libertar o preso político Cesare Battisti, através de uma ampla campanha de solidariedade.

O contato com o comitê pode ser feito através do sítio:

http://cesarelivre.org

sábado, 4 de dezembro de 2010

Trechos "La condition Humaine" de André Malraux-1972

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjacARm59ByzVHrNIKcypdq9qlsDPwgH8o5Ot_BO-LGnGfUMA9rxNAGSp6IVmg29f6BMu-sFRkCAiBNxpYDI1NlUdubDgJYHkq5exOwmI3AbI9MnjjvkiHZWoD8wShh8x92x4keejxSLAM/s1600/la_chinoise.jpg
Pegou na tigela de Kyo (Kyoshi=diminutivo é Kyo.). O Guarda entrou, esbofeteu o homem com toda força e saiu levando a tigela, sem uma palavra.
-Por que não me bateu êle?( A Tigela que o homem faminto pegara era para Kyo, este um japonês pequeno burguês mestiço que militava na indochina pela revolução socialista) Perguntou Kyo em voz baixa.
-Eu era o único culpado, mas não é por isso: você é político, provisório, e está bem vestido. Vai tentar obter dinheiro de você ou dos seus. Mas isso não impede...espere...
"O dinheiro persegue-me até neste covil", pensou Kyo. Tal como nas lendas, a abjeção do guarda não lhe parecia plenamente real; e, ao mesmo tempo, parecia-lhe uma imunda fatalidade como se o poder tivesse podido bastar para transformar quase todos os homens em bêstas. Os sêres obscuros que resmungavam por trás das barras(Grades de ferro), inquietantes como os crustáceos e os insetos colossais dos sonhos da sua infância, não eram mais homens que êles. solidão e humilhação totais. "Atenção", pensou, porque já se sentia mais fraco. Pareceu-lhe que, se não fôsse senhor da sua morte, encontraria ali o pavor. Abriu a fivela do cinto, meteu o cianeto no bôlso.
"...(König interrogando Kyo)
König baixou os olhos, ergueu-os de nôvo:
-Tem amor a vida?
-Depende.
-É que se pode morrer de diversas maneiras.
-Pelo menos não se pode escolher...
-Julga que se escolhe a maneira de viver?
König pensava em si mesmo. Kyo estava resolvido a nada ceder de essencial, mas não desejava de modo algum irritá-lo:
-Não sei. E o senhor?
-Disseram-me que era comunista por dignidade. É verdade?
Kyo não compreendeu, a princípio. Atento à campainha do telefone, perguntava a si mesmo o que significava êsse singular interrogatório. finalmente:
-Isso interessa-o realmente?-Perguntou.
-Mais do que julga.
Havia ameaça no tom, senão na frase. Kyo respondeu:
-Acho que o comunismo tornará a dignidade possível para aquêles com quem combato. O que é contra êle, em todo caso, obriga-os a não ter, a menos que possuam uma sabedoria tão rara entre êles como entre os outros, mais talvez, precisamente porque são pobres e o trabalho dêles os separa da vida. Por que fazer-me essa pergunta, visto que não ouve a minha resposta?
-A que chama dignidade? Isso não quer dizer nada.
O telefone tocou. "A minha vida", pensou Kyo. König não levantou o auscultador.
- É o contrário da humilhação-disse Kyo...Quando se vem de onde eu venho, isto quer dizer alguma coisa...


Pag. 259- liivro "La condition Humaine" de André Malraux- Setembro de 1972.- coleção dos "Imortais" Livros Vermelhos- editora Abril Cultural.
http://iconicphotos.files.wordpress.com/2009/06/2009_04_16_andre_malraux.jpg

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Vídeo e Proposta Inicial do CARACOLTEUA no Pará- 2009

Proposta Inicial do Projeto Desenvolvido pelo Coletivo Caracol Caratateua ou Caracolteua em Belém do Pará. 2009

Caracolteua


Em janeiro de 2009, pessoas de diferentes estados e nacionalidades se encontraram em belém, na ilha de caratateua para discutir e começar a construção de um espaço autônomo e libertário inspirado nos caracóis zapatistas. os dias mais intensos desse encontro chegaram ao fim no início de fevereiro mas um grupo de nós decidiu ficar e levar o projeto adiante: comprar um terreno, organizar espaço, equipamentos e materiais para darmos continuidade ao processo em julho.
em maio eu voltei pra belém. o terreno já estava comprado e havia estacas indicando o início da construção do nosso caracol.


Inspiradxs nxs caracois mexicanxs que funcionam como sedes para a organização de autogestão em regiões zapatistas de chiapas, pessoas de vários estados e países chegaram à belém munidxs de braços, coragem, sonhos e ousadia para colaborar na construção de uma sede com características
autogestionárias e participativas: "um mundo onde caibam vários mundos".


Fonte Blog da Kit:

terrenocaracolmonica

começos.

cortar a madeira caída, arrastar até o terreno, cavar buracos, enterrar a a madeira bem fundo e socar a terra.

terrenocaracolzaca

Para todos todo, para nosotros nada.

isaías – companheiro!terrenocaracolisaias

edmilson. ensinando muito além dos segredos da terra.terrenocaracoledimilson

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Emma Goldman (Projeto Proximo Tópico: Introdução por Carlo Romani · Sobre Individualismo e Revolução Social)



Emma Goldman (1869 — 1940) foi uma anarquista conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.

Nascida em Kovno, no Império Russo (atual Kaunas, na Lituânia), Goldman emigrou para os Estados Unidos da América em 1885 e viveu em Nova Iorque, onde conheceu e passou a fazer parte do florescente movimento anarquista. Atraída pelo anarquismo após a Revolta de Haymarket, Goldman tornou-se uma renomada ensaísta de filosofia anarquista e escritora, escrevendo artigos anticapitalistas bem como sobre a emancipação da mulher, problemas sociais e a luta sindical. Ela e o escritor anarquista Alexander Berkman, seu amante e companheiro por toda vida, planejaram assassinar Henry Clay Frick como uma ação de propaganda pelo ato. Embora Frick tenha sobrevivido ao atentado, Berkman foi sentenciado a vinte e dois anos na cadeia. Goldman foi presa várias vezes nos anos que se seguiram, por "incentivar motins" e ilegalmente distribuir informações sobre contracepção. Em 1906, Goldman fundou o jornal anarquista Mother Earth (Mãe Terra).

Em 1917, Goldman e Berkman foram sentenciados a dois anos na cadeia por conspirarem para "induzir pessoas a não se alistarem" no serviço militar obrigatório, que havia sido recentemente instituído nos Estados Unidos. Depois de serem soltos da prisão, foram novamente presos - junto com centenas de outros progressistas - sendo deportados para a Rússia. Inicialmente simpatizantes da Revolução Bolchevique daquele país, Goldman rapidamente expressou sua oposição ao uso de violência dos sovietes e à repressão das vozes independentes. Em 1923, ela escreveu sobre suas experiências entre os bolcheviques, dando forma ao livro Minha Desilusão na Rússia (My Disillusionment in Russia). Enquanto viveu em Inglaterra, Canadá e França escreveu uma autobiografia chamada Vivendo Minha Vida (Living My Life). Com o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936, Emma, já com mais de 60 anos, viajou até a Espanha para apoiar a Revolução Anarquista.

Durante sua vida, Goldman foi celebrada por seus admiradores, como uma livre pensadora e "mulher rebelde", e achincalhada pelos adversários, como sendo defensora de assassinatos políticos e revoluções violentas. Seus escritos e conferências abrangeram uma variedade de assuntos, incluindo natureza da pena de prisão, ateísmo, liberdade de expressão, militarismo, capitalismo, casamento e emancipação das mulheres. Também desenvolveu novas formas de incorporar políticas de gênero no anarquismo.

Após décadas de obscuridade, nos anos 1970 o legado de Emma voltou novamente a ser reconhecido na medida em que acadêmicas feministas e anarquistas passaram a se interessar em conhecer mais e divulgar sua trajetória e sua obra. É creditada a ela a famosa frase: "Se não posso dançar, não é minha revolução" - que define de maneira simples a ideia anarquista de liberdade.

Emma Goldman faleceu na cidade de Toronto, no Canadá em 14 de Maio de 1940.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

A mídia, os intelectuais e Pierre Bourdieu. Por Jacques Bouveresse


A mídia, os intelectuais e Pierre Bourdieu

Em um tempo em que crítica à mídia tornou-se um produto apreciado até por ela própria, a obra de Bourdieu, que fornece instrumentos para compreender como se dá a dominação cultural e simbólica, suscita contra ela uma unanimidade reveladora.
por Jacques Bouveresse

Cada dia que passa temos mais uma oportunidade de observar o enorme vazio criado pela morte de Pierre Bourdieu e de constatar o quanto se tornou arcaico o modelo do intelectual crítico, do qual provavelmente ele terá sido o último grande representante na França. A meu ver, o que está substituindo esse modelo foi muito bem descrito por Jean-Claude Milner, quando escreveu em seu panfleto Existe-t-il une vie intellectuelle en France ? (Existe uma vida intelectual na França?): "À primeira exortação a servir, sucedeu a segunda: ?deixem de nos ofuscar com inúmeras provas de um saber excessivo ou de uma lucidez desagradável?, acrescentaram os notáveis. Não basta servir, é preciso também se mostrar humilde. Existiram retóricos para formar os doutrinários dessa humildade do Collège de France à imprensa. Daí o intelectual de hoje, pusilânime diante dos fortes, duro diante dos fracos, ambicioso sem projeto, ignorante sob os ouropéis do pedantismo, impreciso de estilo minucioso, inexato de estilo detalhista" 1 .

Mesmo que, como acontece quase sempre nesse caso, provavelmente Milner tenha tendência a idealizar um pouco o período anterior, o que diz parece basicamente certo e corresponde à chegada ao poder de um tipo de intelectual de quem Bourdieu conhecia particularmente bem os costumes e o comportamento, e de quem ele pressentiu e descreveu o advento. Há pouco tempo, propus denominar "intelectual deferente" o tipo de intelectual que evita cuidadosamente dar a impressão de saber mais ou de ter mais consciência que outros e que não perde a oportunidade de manifestar seu respeito por todas as formas de poder, econômicas, políticas e midiáticas, pelas autoridades morais e religiosas, pelas crenças populares e até, se for o caso, pelas idéias feitas.

A evolução, no período atual, constitui uma das questões sobre as quais sempre tive oportunidade de conversar com Bourdieu nos últimos anos. E é importante salientar que ele faz parte justamente daqueles que se opuseram até o fim à idéia de praticar a humildade sob a forma falaciosa que é recomendada atualmente, em outras palavras, à idéia de fazer concessões e de aceitar o acomodamento demandado em relação à competência e ao saber, com a esperança de conseguir contentar o maior número possível de pessoas. Ele jamais considerou que a tarefa do intelectual, mesmo e sobretudo a do sociólogo, pudesse ser, como se demanda cada vez mais, hoje, de se limitar a simplesmente retratar o social sob todos seus aspectos, inclusive os mais inaceitáveis, evitando o máximo possível julgá-lo e formular apreciações suscetíveis de chocar ou de ofender os atores.

Ataques virulentos

Enquanto o marxismo concentrou-se no poder econômico, Bourdieu forneceu instrumentos que permitiam compreender melhor a dominação cultural e simbólica

Para Bourdieu, a tarefa do sociólogo jamais consistiu, de acordo com uma expressão utilizada pelo orientador da tese de Elisabeth Teissier, em se ocupar essencialmente de "aspirar o social", inclusive, eventualmente, no que ele pode ter de mais nauseabundo para alguém que conservou determinadas exigências morais e intelectuais, mas em adquirir um conhecimento real dos mecanismos que o governam, por meio de métodos que nada têm de natural e de imediato, um conhecimento que não só é desejável, mas indispensável, para se conseguir ter êxito em transformá-lo.

Esse aspecto do problema é fundamental para se compreender alguns dos mais virulentos ataques enfrentados por Bourdieu nos últimos anos de sua vida. Ele se achava em uma posição de alguém que dá a impressão de defender uma posição cientificista e elitista contra o que se pode chamar a democracia e a igualdade em matéria de conhecimento e de crença. Este é o modelo do intelectual deferente adotado por Philippe Sollers quando, em um artigo intitulado "Pelo pluralismo midiático", publicado no dia 18 de setembro de 1998 no Le Monde, caracteriza nossa época como "uma época de pluralidades, incertezas, caras sempre novas, surpresas, interseções, confrontos, singularidades irredutíveis", e recomenda ao intelectual aceitar a partir de então, tratando em pé de igualdade todas as formas de contradição e de debate, qualquer que seja sua origem e seu grau de competência e seriedade, aqueles que expressam um ponto de vista diferente do seu.

Alain Finkielkraut expressa de forma ainda mais clara quando sugere que, ao contrário das aparências, o que Bourdieu ataca não é o poder abusivo das mídias, mas o que se pode chamar de "incontrolabilidade democrática". O que ele não aceita, "não é seu reinado, e sim que outras vozes se façam ouvir em pé de igualdade com a sua, não é o estreitamento do espaço público, e sim sua existência" 2.

Engajamento na ação política

Se um intelectual pode, enquanto tal, ser útil aos mais pobres, realmente só pode ser pelo que ele representa e pelo que é capaz de fornecer, ou seja, o conhecimento. Mas é suficiente?

Essa é uma questão sobre a qual é particularmente necessário insistir. Desde que a mídia se tornou, aos olhos de uma parte do próprio mundo intelectual e, de qualquer maneira, certamente dos intelectuais mais midiáticos, a personificação do pluralismo democrático, de acordo com o que, na realidade, é preciso compreender o relativismo e o subjetivismo mais completo em matéria de convicção e de crença ("essa é minha opinião, essa é minha escolha etc."), um intelectual que se dedique a criticar meios de comunicação, sobretudo se o faz de um ponto de vista que se apresenta como o do conhecimento objetivo e, o que é pior, até científico, tem todas as chances de ser acusado de se negar a participar do jogo da democracia real.

Considera-se, em geral, que com a publicação de La Misère du monde, em 1993, foi dada uma guinada importante no itinerário intelectual de Bourdieu, uma vez que foi naquele momento que ele se engajou completamente na ação política e midiática. Essa maneira de apresentar as coisas é, obviamente, muito discutível, pois os escritos de Bourdieu, desde os primeiros, que estão relacionados à experiência da colonização na Argélia, até os mais recentes, sempre apresentaram o mesmo caráter altamente engajado. Mas ainda mais curiosa é a idéia, também muito difundida, que de alguma maneira Bourdieu deixou de ser um intelectual quando se tornou militante (em outras palavras, partidário). Thomas Ferenczi, em um artigo do Monde de 19 de janeiro de 2001, intitulado "Les intellectuels dans la bataille", escreve que, nos últimos anos, Bourdieu "renunciou, em um grande número de suas intervenções, à postura de intelectual para adotar a do militante."

Uma afirmação mais que contestável e que Bourdieu certamente não teria aceitado, uma vez que ele não acreditava que uma presença mais ativa no cenário público e o tratamento de questões como, por exemplo, a da mídia em geral e da televisão, em particular, suscetíveis de atrair mais atenção do grande público, devam custar a renúncia à atitude científica. Por mais que se possa dizer ou escrever sobre essa questão, de qualquer maneira, ele jamais pensou que a postura de militante pudesse substituir a do saber sobre as questões da ciência.

Pela subversão simbólica

As verdades da sociologia crítica podem perfeitamente ser interiorizadas de um modo mais ou menos cínico sem que isso mude muita coisa no comportamento dos interessados

Como diz Alain Accardo, "é (...) submetendo-se o mais escrupulosamente possível ao dever de objetividade ditado pela moralidade científica que o intelectual, lutando para impor simbolicamente a verdade do mundo social, se dá as melhores chances de cumprir, ao mesmo tempo, seu dever moral de solidariedade com os oprimidos para os quais ele leva armas de subversão simbólica da ordem estabelecida" 3 . Não mais nos últimos anos como no início, Bourdieu pensou que pudesse ter aí uma escolha a fazer entre a pesquisa do conhecimento objetivo e os imperativos da ação política e social. E mesmo sobre as questões que, em princípio, interessam a todo o mundo, continuou convencido de que existe um abismo entre o tratamento metódico, preciso e intelectual do sociólogo profissional e a retórica e a verborréia pelas quais os intelectuais estimados pela mídia, que lhes dá mais habitualmente a palavra, buscam a maior parte do tempo substituí-lo. Em outras palavras, ele sempre esteve convencido de que, em matéria de engajamento, em primeiro lugar há coisas a saber e a compreender, e não só posições a tomar e protestos a fazer.

Em La Misère du monde, que foi um best Eller e contribuiu para que a sociologia se tornasse conhecida por um grande número de pessoas que provavelmente a ignoravam inteiramente e não tinham a menor razão específica para por ela se interessarem, Bourdieu manifestou pública e solenemente seu engajamento ao lado de todos os excluídos de nossa sociedade, ao começar por um capítulo dedicado àqueles que personificam, hoje, no mais alto grau, o sofrimento, a humilhação e, às vezes, a indignidade social. Tratava-se, é claro, fundamentalmente dos sofrimentos do proletariado moderno, se admitirmos que ainda existe hoje um grupo, uma classe ou, de qualquer maneira, uma realidade social que merece ser chamada por esse nome, uma questão sobre a qual Bourdieu, por sua vez, não tinha a menor dúvida. Mas a miséria social não é uma simples questão de pobreza material e, obviamente, pode servir de exemplo, de muitas maneiras, no próprio mundo intelectual.

Pensar com Marx, mas contra Marx

Bourdieu foi alguém que sempre se revoltou com a miséria do mundo em todas as suas formas. De minha parte, compartilho inteiramente do ponto de vista expresso por Gérard Noiriel em um livro recente sobre o que se pode denominar a radicalidade do engajamento e a violência do estilo que, segundo ele, dela resultam: "A sociologia de Bourdieu assim como a filosofia de Foucault (...) me dão argumentos para continuar a pensar com Marx, mas contra Marx. Dois elementos me permitem fazer a transição. Em primeiro lugar, a violência do estilo de Bourdieu não deixava nada a desejar à dos marxistas. O que me seduzia muito na época, pois eu estava convencido que um discurso radical refletia necessariamente um engajamento radical. Em seguida, a sociologia de Bourdieu ilustrava, à sua maneira, a palavra de ordem leninista que eu tinha feito minha no início da década de 70: "somente a verdade é revolucionária". Em outras palavras, para ser útil aos mais pobres, basta descobrir e dizer a verdade. Mas o dispositivo que propunha Bourdieu me parecia muito mais satisfatório que o anterior, pois ele punha a pesquisa empírica no primeiro plano em vez de fazer discursos abstratos sobre a luta de classes e a ciência da história. Além disso, enquanto o marxismo concentrou-se no poder econômico, Bourdieu forneceu instrumentos que permitiam compreender melhor a dominação, cultural e simbólica, da qual descobri a importância no momento do conflito de Longwy. Eu dispunha, a partir de então, de todo um arsenal de argumentos para apoiar a crítica aos "porta-vozes" que os homens da siderurgia tinham feito publicamente" 4 .

A constatação de Noiriel poderia, acredito, ser repetida por um grande número de intelectuais de minha geração, que tiveram com o pensamento e o trabalho de Bourdieu o mesmo tipo de relação. Sempre ouvi Bourdieu declarar (principalmente quando criticava o modo de pensamento e o comportamento dos discípulos de Louis Althusser), em um tom meio gozador meio sério, que ele era o único intelectual francês realmente marxista da época. Com isso, queria dizer que era o único a fazer o trabalho de análise e de pesquisa empírica sobre a realidade social que um marxista de hoje deveria considerar obrigatório fazer.

O conhecimento e emancipação dos oprimidos

Um melhor conhecimento como aquele que devemos à sociologia e às ciências humanas pode não estimular um esforço de emancipação, mas, ao contrário, levar à resignação e ao cinismo

Em que medida ele realmente acreditava que, para ser útil aos mais pobres, bastava descobrir e revelar a verdade sobre o mundo social? Sem dúvida, ele considerava isso uma condição necessária, o que é compreensível uma vez que, se um intelectual pode, enquanto tal, ser útil aos mais pobres, realmente só pode ser pelo que ele representa e pelo que é capaz de fornecer, ou seja, o conhecimento. Mas sobre a questão de saber se a condição necessária é também suficiente, Bourdieu era, creio eu, ou em todo caso se tornou, ao longo dos anos mais hesitante. É um problema que conheço relativamente bem, porque o discuti muitas vezes com ele e faz parte daqueles sobre os quais realmente nunca chegamos a um acordo.

Na verdade, sempre achei um tanto otimista a idéia de que um conhecimento e uma compreensão a mais devam produzir necessariamente ou possam produzir freqüentemente um efeito de libertação sobre aquele ao qual é fornecido. É uma suposição que me parece, sobretudo no período atual, constantemente desmentida pelos fatos. As verdades da sociologia crítica podem perfeitamente ser interiorizadas de um modo mais ou menos cínico sem que isso mude muita coisa no comportamento dos interessados: continua-se a agir como antes, mas sabendo as conseqüências disso e escondendo-se atrás do fato que, do ponto de vista do próprio sociólogo, todo o mundo faz praticamente o que estava previsto e simplesmente não o pode fazer de outra maneira.

Resignação e cinismo intelectual

Várias vezes Bourdieu me disse que tinha ficado profundamente chocado com o que eu escrevera, em Rationalité et cynisme, a propósito da maneira que um melhor conhecimento como aquele que devemos à sociologia e às ciências humanas, em geral, pode, na verdade, não estimular um esforço de emancipação, mas, ao contrário, levar à resignação e ao cinismo. Com toda certeza, é chocante, mas infelizmente não é muito contestável. O uso hoje feito de intelectuais que, em sua época, foram considerados os mais subversivos, como Foucault, que se tornou, ao que parece, um autor de referência para alguns pensadores do Medef (sigla de Mouvement des Entreprises de France, organização patronal), constitui uma interessante confirmação disso. Alain Accardo certamente tem razão de salientar que, em todo caso, se a visão de Bourdieu das relações sociais suscitou tanta hostilidade entre os membros do establishment "é porque ela convida aqueles que a levam a sério a se mostrar conseqüentes e a escolher seu lado" 5 .

Se a visão de Bourdieu das relações sociais suscitou tanta hostilidade entre os membros do establishment "é porque ela convida aqueles que a levam a sério a escolher seu lado"

Mas pode-se temer que, infelizmente, não há nada a que o homem atual se habitue tão facilmente e que acabe lhe parecendo tão natural como a inconseqüência. Pensar de uma maneira e agir de outra infelizmente pode também se tornar um hábito e até mesmo constituir o hábito moderno por excelência.

Evidentemente, pode-se também se tranqüilizar ao dizer que, por sua vez, Bourdieu se manteve o inimigo número 1, unanimemente reconhecido e abertamente revelado, de todos os defensores da ordem liberal, e que seu pensamento não se submeteu durante muito tempo a um processo de recuperação como o que assinalei. Como constata Michel Onfray, há nesse momento uma notável unanimidade, muito reveladora e, em última análise, muito tranqüilizadora, que se expressa contra ele. E explica: "A razão disso é simples e evidente: Pierre Bourdieu manifesta claramente sua luta contra o capitalismo em sua versão liberal e, conseqüentemente, herda como inimigos todos aqueles que defendem essa política, direita e esquerda juntas, ou seja, a maioria dos jornais, com exceção de poucos, uma parcela ínfima em que se pode ler verdadeiras homenagens, sem crítica alusiva nem perfídia expressa por um antigo discípulo, nem reserva emitida em entrelinhas por um panfletário hábil e diplomata. Ora, os intelectuais, pensadores, filósofos e outros atores do mundo das idéias, que expressam nitidamente sua oposição à dominação liberal e ao futuro do planeta integralmente submetido à lei do mercado, são pouco numerosos em uma época em que o dinheiro como horizonte intransponível fornece o credo em torno do qual se organizam as tomadas de posição ideológicas, nacionais e internacionais" 6.

A crítica midiática na mídia

Apesar de tudo, quando se pergunta sobre a capacidade que os intelectuais podem ter de agir sobre o mundo e de contribuir para transformá-lo, tem-se a obrigação de salientar imediatamente que não há nada mais fácil e mais corrente do que acreditar no que dizem os mais críticos e, entre eles, os mais radicais, e ao mesmo tempo abster-se de tirar disso qualquer conseqüência. É uma questão que se coloca com uma acuidade particular a propósito das chances de sucesso que podem ser atribuídas à denúncia dos abusos de poder dos quais o sistema midiático se torna culpado.

Gostaríamos de poder dar razão a Bourdieu quando ele afirma que a crítica teórica e intelectual na mídia é suscetível de levar a uma tomada de consciência e, por esse caminho, a uma modificação dos comportamentos individuais e, talvez, a uma melhora das coisas. Ele explica em seu livro sobre a televisão: "Tenho a convicção (e o fato de apresentá-las em uma cadeia de televisão o testemunha) que análises como essas talvez contribuam, em parte, para mudar as coisas. Todas as ciências têm essa pretensão. Auguste Comte dizia: ?Ciência e daí previsão, previsão e daí ação?. As ciências sociais têm direito a essa ambição assim como as outras ciências?" 7 . Sou, antes de mais nada, cético em relação aos resultados aos quais a sociologia crítica da mídia levou até agora. Mas a honestidade me obriga a dizer que não sei mais do que outros o que ainda pode ser eficaz contra um poder tão desmedido e tão armado e protegido como aquele em questão. Se a visão de Bourdieu das relações sociais suscitou tanta hostilidade entre os membros do establishment "é porque ela convida aqueles que a levam a sério a escolher seu lado"

Sem dúvida, Michel Onfray tem razão ao responder, àqueles que formularam contra Bourdieu a crítica grotesca de ter sido "o mais midiático de todos os inimigos da mídia", que "a crítica midiática da mídia não constitui de maneira alguma uma contradição" 8 . Ele escreve: "O que dizem os sofistas que associam crítica da televisão à obrigação de nela não se apresentar? Que a crítica do funcionamento da mídia se efetua somente no deserto? Que a alternativa consiste em se render a ela para adular as potências que convidam ou a nunca nela se apresentar a fim de preservar sua capacidade crítica? Vejo nisso um erro de raciocínio, pois existe uma outra possibilidade: render-se a elas e criticá-las, em seguida demonstrar a legitimidade de uma crítica midiática da mídia" 9 .

A eficácia dos pensadores midiáticos

Há nesse momento uma notável unanimidade, muito reveladora, que se expressa contra Bourdieu, por ele manifestar claramente sua luta contra o capitalismo em sua versão liberal

Como todos os pensadores midiáticos, Onfray simplifica demasiadamente as coisas quando suspeita a priori da pureza de motivação dos inflexíveis (é claro que Bourdieu não pertence a essa categoria), ao sugerir que, se eles se recusam a aparecer na televisão, isso só pode ser porque jamais foram convidados ou porque sabem que não o seriam facilmente10 . Eu me pergunto se, infelizmente, ele não corre o risco de ser obrigado a incluir na categoria dos "cenobitas leigos instalados nos cumes mais próximos do céu das idéias em que o nada, o vazio e a ausência reinam como mestre" 11 pensadores como Jules Vuillemin pelos quais Bourdieu tinha justamente a maior admiração e pensava que estavam entre os raros a ter exatamente algo de substancial a dizer hoje. Se, no que diz respeito à televisão, ao rádio e aos jornais, a "presença crítica" é, sem dúvida, preferível a "um silêncio tão improdutivo quanto o nada" 12 , a maioria dos intelectuais que utilizam esse argumento para justificar a resposta afirmativa que dão às solicitações dos meios de comunicação me parecem se tornar muito rapidamente mais presentes do que realmente críticos - algo que, em compensação, certamente não se poderia dizer de Bourdieu. Mas não é essa a questão que quero discutir aqui.

A questão não me parece ser exatamente saber se podemos ou não criticar com êxito (em particular, com um certo êxito midiático) a mídia na mídia. Sem dúvida, a crítica midiática da mídia é possível e até poderíamos dizer programada e almejada pelo próprio sistema. Mas todo o problema é saber que chances ela tem de produzir efeitos reais e se conseguiu até hoje, ou conseguirá amanhã, desestabilizar de alguma maneira o poder que ela ataca e modificar, mesmo que pouco, uma evolução que parece ter se tornado praticamente inevitável e sobre a qual ninguém, há muito tempo, parece mais ter meios de agir.

A crítica esquecível

Christopher Lasch observa que "... a comunicação de massa, por sua própria natureza, reforça, a exemplo da cadeia de montagem, a concentração do poder e a estrutura hierárquica da sociedade industrial. Ela não o faz difundindo uma ideologia autoritária feita de patriotismo, de militarismo e de submissão como tantos críticos de esquerda o afirmam, mas destruindo a memória coletiva, substituindo as autoridades em que era possível confiar por um star system de um novo gênero, e tratando todas as idéias, todos os programas políticos, todas as controvérsias e todos os conflitos como sujeitos igualmente dignos de interesse do ponto de vista da atualidade, igualmente dignas de prender a atenção dispersa do espectador e, conseqüentemente, igualmente esquecíveis e sem a menor significação" 13

Nessas condições, não se sabe muito bem o que poderia impedir que a crítica da mídia constituísse um assunto midiático capaz, como qualquer outro, de manter por um momento a atenção dispersa do leitor ou do espectador, mas ao mesmo tempo tão esquecível e tendo todas as chances de ser tão rapidamente esquecida quanto qualquer outra. Portanto, não é necessário ser elitista, puritano ou espírito de porco para se colocar questões sérias sobre a eficácia de uma crítica da mídia formulada na mídia e sobre o comportamento dos intelectuais que se orgulham de conseguirem ser ao mesmo tempo midiáticos e críticos. Para explicar o que se passa, de maneira alguma é necessário recorrer a uma teoria do complô ou imputar uma perversidade especial aos atores relacionados, particularmente aos mais poderosos.

Para Bourdieu, não há forças do mal agindo no mundo social. Simplesmente, há sistemas dos quais é preciso descrever a lógica ou, para utilizar a linguagem de Bourdieu, áreas cujo funcionamento obedece a leis que, se não são imediatamente passíveis de ser conhecidas, no entanto não têm o menor segredo.

Dominação e linguagem

A desigualdade nas condições de acesso à linguagem e ao controle das formas impostas da boa e bela linguagem constitui um dos fatores de discriminação mais importantes

Do mesmo modo que Kraus, Bourdieu não criticou os jornalistas com o objetivo de desculpar os intelectuais. Gérard Noiriel escreve que "a crítica dos intelectuais é, sem dúvida, a pedra angular de toda a sociologia de Bourdieu A noção de "poder simbólico" que ele elaborou para explicar essa forma de dominação parte da idéia de que todas as relações sociais são mediatizadas pela linguagem" 14 . Esse é um ponto de fato inteiramente crucial em Bourdieu. A desigualdade nas condições de acesso à linguagem e ao controle das formas impostas da boa e bela linguagem constitui um dos fatores de discriminação mais importantes entre os que exercem e os que são condenados a se submeter ao poder simbólico - e ao poder em geral no que ele tem necessariamente de simbólico - e uma das fontes principais da distinção entre os dominantes e os dominados.

Bourdieu retomou constantemente a questão do considerável privilégio daqueles que têm os meios de atuar de uma maneira que passa fundamentalmente pela linguagem e por sua capacidade de fazer com que o outro aceite uma representação da realidade, que não tem necessidade de ser objetiva para ser crível - e no entanto não o é a maior parte do tempo -, mas que é concebida para apresentar a realidade a seu favor e servir a seus próprios fins. O poder simbólico é, sobretudo, o poder de levar os dominados a perceberem e descreverem as coisas como aqueles que ocupam posições dominantes têm interesse que eles vejam e descrevam.

É o que acontece, obviamente, com intelectuais, de quem Bourdieu pensa que sua relação com a linguagem e sua possibilidade de criar o mundo do qual falam, simplesmente ao falarem sobre ele, estão na origem de uma dificuldade especial que lhes torna extremamente problemático, para não dizer impossível, o acesso à realidade propriamente dita, e mais especialmente à realidade social. Mas é o que acontece também com todos os produtores de discursos e, em particular, com políticos e jornalistas. Pode-se pensar que isso realmente acontecerá cada vez mais, uma vez que governar tornou-se hoje algo quase sinônimo de comunicar.

(Trad.: Wanda Caldeira Brant)

* Titular da cadeira de filosofia no Collège de France. Autor de Bourdieu, savant et politique, que será lançado no dia 17 de fevereiro pela Editions Agone, do qual este artigo foi extraído.

1 - Jean-Claude Milner, Existe-t-il une vie intellectuelle en France? Editions Verdier, Lagrasse, 2002, p. 24.
2 - Alain Finkielkraut, "Sauver l’innocence et le secret ", Le Monde, 18 de setembro de 1998.
3 - Alain Accardo, " Un savant engagé ", Awal, Cahiers d?études berbères, n° 27-28, 2003.
4 - Gérard Noiriel, Penser avec, penser contre, Itinéraire d’un histor.


Chiapas: aproximação entre zapatistas, MST e Movimento Consulta Popular- Entrevista especial com Ricardo Gebrin


Chiapas: aproximação entre zapatistas, MST e Movimento Consulta Popular? Entrevista especial com Ricardo Gebrin

Em dezembro de 2007, os zapatistas, movimento inspirado pela luta de Emiliano Zapata contra o regime autocrático de Porfírio Diaz, que encandeou a Revolução Mexicana de 1910, promoveram um Colóquio Internacional, na cidade de Chiapas, com o intuito de debater a América Latina e seus rumos. Ricardo Gebrin, membro da Coordenação Nacional do Movimento Consulta Popular, participou do encontro e narrou esse acontecimento à IHU On-Line, na entrevista a seguir, realizada por e-mail.

“A burguesia mexicana é um inimigo hábil e experiente. Sua estratégia central para enfrentar o EZLN é intensificar a presença do capitalismo numa região que historicamente sempre foi abandonada pelo Estado. Passaram a desenvolver diversos mecanismos de desestruturação e cooptação de comunidades indígenas. Estimularam o surgimento de grupos paramilitares e promoveram um constante ataque às comunidades”, contou Gebrin. Para ele, “o Colóquio representou uma sinalização importante da aproximação dos zapatistas não só com o MST e a Consulta Popular, mas com as organizações e movimentos sociais de nosso continente”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor esteve em Chiapas participando do Colóquio Internacional promovido pelos zapatistas. Com que imagens e pensamentos saiu de lá?

Ricardo Gebrin - O Colóquio foi um momento importante para os debates de caráter estratégico em nosso continente. Foi organizado no formato de conferências coletivas, em que o porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional, Subcomandante Marcos (1), participou de todas as mesas de debate. Entre os convidados para os painéis se encontravam: Sylvia Marcos, Naomi Klein (2), Inmanuel Wallerstein, Pablo González Casanova (3), Enrique Dussel (4), Sergio Rodríguez Lascano, Carlos Antonio Aguirre Rojas, Gustavo Esteva (5), John Berguer (6), Jean Robert, Jorge Alonso, Ernesto Ledesma, Luis Villoro (7) e Gilberto Valdés. Tive o privilégio de participar de uma mesa com François Houtart (8), Peter Rosset e o Subcomandante Marcos. Ao fazer a fala final, em cada um dos painéis, o Subcomandante elaborava uma síntese das questões centrais. Ele apresentou sete pontos que me parecem sistematizar bem a essência dos debates.

  1. Não se pode entender e explicar o sistema capitalista, sem o conceito de guerra. Sua sobrevivência e crescimento defendem fundamentalmente a guerra e todas as suas implicações. É através dela que o capitalismo desaloja, intensifica sua exploração, reprime e discrimina. Em sua etapa neoliberal, os capitalistas desencadeiam uma guerra contra toda a humanidade;
  2. Para aumentar seus lucros, os capitalistas não só apelam para a redução de custos de produção, aumento de preços das mercadorias. Agregam ainda três outras formas: o aumento de produtividade, a produção de novas mercadorias e a abertura de novos mercados;
  3. A produção de novas mercadorias e a abertura de novos mercados se realiza com a conquista e reconquista de territórios e espaços sociais que antes não tinham interesse para o capital. Há um destaque para os conhecimentos ancestrais e códigos genéticos, além de recursos naturais como água, florestas e até mesmo o ar, todos encarados enquanto preciosas mercadorias de mercados a serem desbravados. Os que se encontram detentores destes conhecimentos, espaços sociais e territórios, inevitavelmente, se convertem em inimigos do capital;
  4. O capitalismo não tem como destino inevitável sua autodestruição, salvo se isso resultar numa destruição de toda a humanidade.
  5. A destruição do sistema capitalista somente se realizará se um ou muitos movimentos o enfrentam e o derrotam em seu núcleo central, isto é, na propriedade privada dos meios de produção;
  6. As transformações reais de uma sociedade, isto é, as relações sociais em um determinado momento histórico, são principalmente aquelas que se enfrentam com o capitalismo em seu conjunto. Atualmente, já não são possíveis reformas progressivas;
  7. As grandes transformações não começam “por cima”, nem com feitos monumentais e épicos, senão através de persistentes movimentos, algumas vezes, pequenos em sua forma, que aparecem como irrelevantes para os analistas que olham “de cima”. A história se transforma, a partir da construção consciente de organizações e forças sociais que se conhecem e reconhecem mutuamente, desde baixo e à esquerda, e constroem uma outra política.

IHU On-Line - Os zapatistas falam da estratégia de “Guerra de baixa intensidade” contra as forças da direita. Do que se trata essa estratégia?

Ricardo Gebrin - Todos os elementos de uma “Guerra de Baixa Intensidade” estão presentes no conflito que enfrentam atualmente. A burguesia mexicana é um inimigo hábil e experiente. Sua estratégia central para enfrentar o EZLN é intensificar a presença do capitalismo numa região que historicamente sempre foi abandonada pelo Estado. Passaram a desenvolver diversos mecanismos de desestruturação e cooptação de comunidades indígenas. Estimularam o surgimento de grupos paramilitares e promoveram um constante ataque às comunidades. Já em 1997, houve o massacre de Acteal, no qual 45 indígenas tzotziles foram assassinados por paramilitares enquanto rezavam numa capela. Desde então, pequenos ataques e agressões ocorrem de forma cotidiana. O objetivo é ir gerando um cerco, isolamento e desgaste das comunidades. Por outro lado, o EZLN enfrenta essa guerra de baixa intensidade, respeitando o acordo firmado em 1994, através do qual cessou suas atividades bélicas. Esta é a situação atual, que exige uma constante e articulada solidariedade internacional para enfrentar o cerco.

IHU On-Line - As “juntas de bom governo” são a estrutura central da organização popular nos territórios zapatistas. Trata-se do exercício de uma democracia direta e participativa?

Ricardo Gebrin - Sem dúvida, as “Juntas de Bom Governo” são importantes experiências de construção de Poder Popular e democracia participativa. Trata-se de uma experiência marcada pelo processo histórico de organização dos povos indígenas.

IHU On-Line - Sobre o subcomandante Marcos, que papel de fato ele joga no movimento zapatista?

Ricardo Gebrin - O Subcomandante Marcos é um quadro político extremamente capaz. Mais do que um mero porta-voz, possui grande capacidade de elaboração política e compreensão do atual momento histórico. Como toda a construção coletiva, o movimento zapatista vem formando novos quadros, e esta é a única garantia para um projeto revolucionário.

IHU On-Line - 2010 é uma data histórica para o México, com os duzentos anos da libertação dos espanhóis e cem anos da independência. Vai acontecer algo?

Ricardo Gebrin - A esperança de que 2010 seja uma data decisiva na história do México está presente no imaginário popular. Sem dúvida, isso acaba se convertendo num elemento subjetivo com potencialidade, mas é algo no campo da esperança e da profecia. O importante é assinalar que a crescente probabilidade de uma crise profunda na economia dos Estados Unidos poderá determinar o final de um ciclo muito favorável ao capitalismo e, realmente, inaugurar um novo período para a luta de classes. Oxalá essa mística das datas se concretize!

IHU On-Line - O movimento social brasileiro olha com muito respeito para o movimento social mexicano, porém a sua articulação com o zapatismo sempre foi frágil. O MST e o movimento zapatista estão entre os dois principais movimentos sociais latino-americanos, mas não se percebe uma articulação consistente. Quais são as razões?

Ricardo Gebrin - O Colóquio representou uma sinalização importante da aproximação dos zapatistas não só com o MST e a Consulta Popular, mas com as organizações e movimentos sociais de nosso continente. Esse processo de construção de uma articulação entre os movimentos sociais da América Latina exige paciência, recursos e muita habilidade. Nos últimos anos, a necessidade de trocar experiências e aprofundar as relações se intensificou. Em especial, a luta contra a ALCA foi um poderoso estímulo para este processo. Iniciativas como a construção de um Conselho Social da ALBA, composto por movimentos sociais, abrem um novo período para que as organizações populares construam espaços e articulações muito mais consistentes.

IHU On-Line - Quais são as semelhanças que o senhor identifica entre a concepção política dos zapatistas no México e do Movimento Consulta Popular no Brasil?

Ricardo Gebrin - Guardadas as proporções e os processos históricos distintos, a experiência da “Outra Campanha” implementada pelos zapatistas no México e a Consulta Popular no Brasil são as duas únicas iniciativas da esquerda em nosso continente, que ousaram questionar a lógica da centralidade na luta eleitoral. Somente por isso, já teríamos uma forte identidade. A disputa eleitoral, gradativamente, foi deixando de ser um elemento tático para se converter no principal e, algumas vezes, único objetivo estratégico. Essa lógica passou a determinar a formação ideológica e os valores da militância. Ousar questioná-la não é simples, acarreta isolamento e ataques generalizados dos que se acomodaram ou sobrevivem nessa lógica. Mas nossa identidade não se limita a essa ousadia teórica. Também nos identificamos na construção de um projeto, no qual a conduta de cada militante não é voltada para acumular cargos, postos ou vantagens, mas se converter neste construtor coletivo, cuja melhor definição é “querer ser como o Che”.


Notas:
(1) Subcomandante Marcos é o porta-voz do movimento zapatista no sudeste mexicano. Em 9 de fevereiro de 1995, o governo do México declarou publicamente que conhecia a identidade de Marcos, identificando-o como sendo Rafael Sebastián Guillén Vicente, ex-professor da Universidad Autónoma Metropolitana (UAM) da Cidade do México. Guillén nasceu no México, filho de imigrantes espanhóis, e estudou no instituto jesuíta em Tampico. Depois, se mudou para a capital do México, onde se formou em filosofia na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) com o trabalho de tese "Filosofia e educação: práticas discursivas e práticas ideológicas em livros de escola primária". Depois, começou a trabalhar como professor na Universidad Autónoma Metropolitana e logo iniciou sua atividade com os zapatistas. Marcos sempre negou ser Rafael Guillén. Familiares dizem ignorar o paradeiro de Rafael, e afirmam que nunca foi realmente confirmado que Marcos e Rafael eram a mesma pessoa. Como muitas pessoas de sua geração, foi afetado pela Matança de Tlatelolco, em 1968, e ingressou em uma organização maoísta, passando posteriormente ao zapatismo. Depois de ingressar no EZLN, Marcos transformou sua ideologia, rodeado de visões revolucionárias mais pós-modernas, outras idéias expostas em seus discursos e ações estão mais relacionadas com os ideais marxistas do italiano Antonio Gramsci, muito populares no México quando estudava na Universidade.

(2) Naomi Klein é uma jornalista, escritora e ativista canadense. Em 2000, publicou No logo (traduzido como Sem logo - A tirania das marcas em um planeta vendido), que para muitos se transformou em um manifesto do movimento antiglobalização. O livro traz efeitos negativos da cultura consumista e as pressões impostas de grandes empresas sobre seus trabalhadores. Em 2002, publicou Fences and windows (em português Cercas e janelas), uma coleção de matérias escrita por ela sobre o movimento antiglobalização no mundo como movimento zapatista e os protestos contra OMC e FMI. Em 2004, Klein e o marido Avi Lewis fizeram um documentário chamado The take, no qual contam sobre os trabalhadores autônomos na Argentina.

(3) Pablo González Casanova é um sociólogo e crítico mexicano condecorado pelo UNESCIO, em 2003, com o Prêmio Internacional José Martí por sua defesa em relação à identidade dos povos indígenas da América Latina.

(4) Enrique Dussel é um filósofo argentino exilado desde 1975 no México. É um dos maiores expoentes da Filosofia da Libertação e do pensamento latino-americano em geral. Autor de uma grande quantidade de obras, seu pensamento recorre a temas como filosofia, política, ética e teologia. Tem se colocado como crítico da pós-modernidade, chamando por um novo momento denominado transmodernidade. Tem mantido diálogos com filósofos como Apel, Gianni Vattimo, Jürgen Habermas, Richard Rorty e Lévinas, sendo um crítico do pensamento eurocêntrico contemporâneo. Radicado na França em 1961, estuda Teologia e História na Sourbonne. Obtém um título em estudos de Religião no Instituto Católico de Paris, em 1965. Em 1968, regressa a Mendoza para lecionar Ética na Universidad Nacional de Cuyo. Entre 1969 e 1973, começa uma radiante etapa de sua reflexão e formula pela primeira vez a possibilidade de uma filosofia da libertação. Vai de encontro aos pensamentos de Heidegger e Husserl. Sua leitura de Emmanuel Lévinas produz, segundo suas palavras, o "despertar do sonho ontológico". A ditadura militar começa a lhe ser hostil. Sofre um atentado a bomba, em sua casa, em 1973. Acusam-no de ser marxista e começam a ser freqüentes as ameaças de morte por grupos paramilitares. É expulso da Universidad Nacional de Cuyo em 1975. Seus livros são proibidos e as publicações que dirigia são censuradas. Nesse mesmo ano, se exila no México onde trabalhou Departamento de Filosofia da Universidad Autónoma Metropolitana, unidade de Iztapalapa (1975) e na Universidad Nacional Autónoma de México (1976).

(5) Carlos Esteva é um ativista mexicano, importante intelectual e fundador da Universidad de la Tierra, na cidade de Oaxaca, no México. É também um ex-oficial do governo Echeverría e conselheiro do Exercito Zapatista de Libertação Nacional, em Chiapas, para negociações com o governo. Trabalha no Centro para Diálogos Interculturais e Trocas, em Oaxaca.

(6) John Peter Berger é um crítico de arte, romancista, pintor e escritor inglês. Entre suas obras mais conhecidas, estão o romance G., vencedor do Booker Prize de 1972, e o ensaio introdutório em crítica de arte Ways of seeing, escrito como acompanhamento da significativa série homônima da BBC, e freqüentemente usado como texto universitário.

(7) Luís Villoro Toranzo é um filósofo español naturalizado mexicano. É professor emérito da Universidade Nacional Autônoma do México, onde também licenciou-se em Letras e doutorou-se em filosofia. Desempenha funções, também, como Embaixador do México na UNESCO.

(8) François Houtart é um sacerdote católico e sociólogo marxista. Nasceu na Bélgica. Foi o fundador do Centro Tricontinental, que funciona na Universidade Católica de Lovaina. Está fortemente ligado ao movimento da Teologia da Libertação, da qual é considerado um dos expoentes mais radicais, ao ponto de estar ligado à revolução sandinista, na Nicarágua.

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